O anjo me sorriu

Para Luiz Cleodon (in memorian)
e Graco Medeiros
Eu tinha apenas nove anos em 1968. Meu irmão amava os Beatles e os Rolling Stones e eu adorava os artistas da bola, como Pelé, Garrincha, Alberí, Pancinha e Icário. Os três últimos, craques dos clubes da minha Natal; ABC, América e Alecrim, respectivamente.
Eram dias felizes e eu buscava a magia das brincadeiras improvisando futebol com tampinhas de garrafas e caixas de fósforo, uma alternativa à insuficiência financeira da família que não podia dar-se ao luxo de comprar brinquedos fora do período natalino.
No rádio valvulado de última geração, eu ouvia os jogos do campeonato local, nas narrações impecáveis de Roberto Machado ou Hélio Câmara. Um dia anunciaram um amistoso entre Alecrim e Sport do Recife; meus olhos brilharam, o coração gelou.
Pelo que pude entender, era um jogo festivo e beneficente com a presença dele, o mágico da camisa 7 do meu Botafogo; o gênio que encantou o mundo em terras da Suécia, em 1958; o passarinho que fez verão sozinho nos campos do Chile, em 1962.
Num esforço econômico bem próprio, meu pai deu o dinheiro dos ingressos e as orientações ao meu irmão adolescente, para que em nenhuma hipótese trocasse a arquibancada coberta por guloseimas. Para não me expor no cimento a céu aberto.
Natal era só um pedacinho de um Brasil em convulsão política, deslocado da conjuntura das passeatas estudantis, das greves de soldados e marinheiros, do jogo ideológico “militares versus militantes”. Alheio a tudo, eu queria ver os dribles de Garrincha.
Acordei naquele dia com os pés em nuvens de alegria, aquela mesma emoção que brotava dos pés do ídolo e invadia o coração das multidões em festa. Um radinho de pilha espalhou pelo ônibus “roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria...”
No meu entendimento de menino, o sucesso nacional de Wilson Simonal naquele ano, “Sá Marina”, tinha uma relação com o futebol e mais ainda com o Mané, por sinal amigo do popular cantor. “Dança que essa gente aflita se agita e segue no seu passo”.
Meu mundo era colorido, como pintava a geração hippie na moda da Jovem Guarda, feito a explosão das torcidas e as capas das revistas em quadrinhos; era como se cada manhã eu acordasse dentro de um filme e fizesse do cotidiano um seriado de TV.
No rumo do pequeno estádio Juvenal Lamartine, eu só pensava em Garrincha; a cabeça era um caleidoscópio das imagens construídas a partir das narrativas que eu ouvia sobre ele; só faltava uma trilha sonora de Buddy Kaye, como na série “Jeanne é um Gênio”.
Minha satisfação era parte da felicidade geral de uma nação que ao amar um anjo torto esquecia os diabos do cotidiano, como dissera Carlos Drummond de Andrade: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”.
Garrincha consagrou um povo e deixou para terceiros as glórias e os registros históricos. Porque ninguém foi maior do que ele em Copas do Mundo. Estraçalhou defesas em 1958 e ganhou a taça de 1962 com dribles, gols e passes de mágica.
Sempre que ouço, repetidas vezes, a voz de Moacir Franco em sua Balada nº 7 aflora no peito e na face o menino que eu fui: “Cadê você / cadê você / você passou / no vídeo tape do sonho / a história gravou”. Lágrimas rolando como bolas de saudade.
E é na saudade dos dribles gravados que eu sei que o gênio inocente jamais passará, comprovando o prognóstico do velho mestre João Saldanha: “Nos próximos 400 anos, sempre que alguém falar em futebol vai ter que falar no Mané Garrincha”.
Mané será sempre um livro inacabado, aberto em folhas novas para que sua história vá ganhando capítulos “ad perpetuam”. O futebol todo dia se manifesta em coisas dele, como no grito de “olé”, nas faixas de “fair play”, nos treinos do jogo do “bobo”.
Foi no México, driblando marcadores do River Plate, que Mané fez a arquibancada emitir o grito das touradas; foi diante do zagueiro Pinheiro, caído em campo, que ele atirou a bola para fora, chamando o atendimento médico do Fluminense.
Com o amigo e compadre Nilton Santos, num jogo épico contra o Flamengo, resolveu coroar a goleada botando na roda um zagueiro potiguar e outro cearense. Surgiu então a brincadeira do “bobo” que os jogadores até hoje brincam durante o aquecimento.
Era um louco e era um deus, na expressão de Sêneca; “não há grande gênio sem um toque de loucura”. As asas de Hermes no voo rasteiro em zigue-zague. Nos versos de Vinicius de Moraes, a natureza do seu encanto: “Feliz, entre seus pés – um pé de vento”.
1968 – 4 de fevereiro e uma tarde mágica. Garrincha, Garrincha, Garrincha, gritei olhando o ídolo na camisa esmeralda. Num lançamento, chegou tarde na bola, perdida na lateral. Parou, mãos na cintura, um olhar para cima, um sorriso para o garoto que gritava. Garrincha, um passarinho, não passará até que todos passem.
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RIO DE JANEIRO
















