
Antes de a Seleção Brasileira viajar para a Alemanha, para jogar a Copa de 2006, todo o elenco fez a tradicional visita ao Palácio do Planalto, coisa já repetida desde o boa-praça JK e o general Médici. O então presidente Lula recebeu a famosa camisa amarela.
Autografada pelos jogadores, foi entregue pelo lateral Roberto Carlos, que além de fazer média com o governante, ainda lançou na imprensa piadas com o rei Pelé, mandando que este “ficasse quietinho” e parasse de criticar o estilo de jogo do técnico Parreira.
A participação de RC na Copa ficou restrita a uma papagaiada que mandou o Brasil mais cedo para casa. O lateral na posição que Napoleão perdeu a guerra, arrumando o meião, e um ágil lanceiro francês chegando por trás para vencer o goleiro Dida.
Thierry Henry só precisou ter boa visão de jogo e um incrível sentimento do tempo da bola para completar, com um toque fatal, na chapa do pé direito, o lançamento do gênio Zidane. Até hoje eu fico imaginando se Pelé soltou alguma risada naquele lance.
O gol de Henry teve a força de um soco na moral dos brasileiros, posto que horas antes da partida ele mesmo havia feito uma ironia com a nossa triste realidade, num comentário ferino e verdadeiro, em que pese a ausência de motivos no campo da bola.
Disse que era muito difícil enfrentar jogadores brasileiros, pois estes passaram a infância e juventude apenas jogando futebol, longe das escolas, enquanto os franceses se dividiram entre o esporte e o conhecimento. A “pachecada” odiou o ataque sociológico.
Thierry Henry é um dos grandes exemplos de superação pessoal no mundo esportivo. Nasceu num gueto de Paris, em Les Ulis, filho de migrantes das Antilhas Francesas. Num ambiente de pobreza, aprendeu a sobreviver jogando bola e estudando.
Foi um xará, Thierry Pret, olheiro do subúrbio de Viry-Chatillon, ao sul de Paris, quem percebeu o potencial do menino e o colocou no time sub-15. Tendo que encarar, aos 13 anos, zagueiros mais velhos e a separação dos pais, Henry fez 77 gols em 26 jogos.
Quando fez 15 anos, sua velocidade e uma visível inteligência na postura em campo atraíram a atenção do técnico do time do Mônaco, Arsene Wenger, uma espécie de intelectual da bola, apesar de ter sido um modesto jogador de futebol na juventude.
A vida e a carreira do jovem artilheiro começariam a mudar a partir de Wenger, que apostou no seu potencial, muitas vezes de maneira insistente, mesmo quando o desempenho de Henry ficava abaixo das expectativas. Era achar o ponto de encaixe.
O primeiro contrato, como aprendiz de goleador, foi assinado com 16 anos, em 1994. Jogou no time principal em oito ocasiões, deixando três gols nas redes adversárias. Wenger insistia que tinha uma arma letal por armar e o levou para seleção sub-18.
Não demorou e aquele jovem negro com traços faciais caucasianos chamou a atenção de um grande clube, o Real Madrid. Após uma negociação atrapalhada, a FIFA interferiu ao perceber que o jogador ficou com contrato duplicado, na França e na Espanha.
O ano de 1997 foi decisivo para abrir os caminhos de Henry, tendo feito um bom campeonato no Mônaco e finalizando sete vezes na Liga dos Campeões. Nesta altura, clubes poderosos o assediavam: Barcelona, Manchester United, Real Madrid e Arsenal.
Seu olhar, no entanto, fitava a Copa do Mundo 98, a realizar-se em casa. Arsene Wenger estava longe, no Japão, e um colega seu, com cidadania argentina, David Trezeguet, dividia com ele as preferências de ataque na seleção do maestro Zidane.
O técnico Aimé Jacquet colocou o garoto de 20 anos em campo e ele marcou na estréia contra a África do Sul, aos 90 minutos, e fez mais dois na segunda partida, diante da Arábia Saudita. O teste de nervos foi na conversão do pênalti contra a Itália, nas quartas-de-final.
Depois da Copa, o jovem Henry campeão do mundo foi encontrar-se com seu mentor, Wenger, em Londres, onde havia assumido o Arsenal. Ali ele consagrou sua história, maior artilheiro de todos os tempos do clube e seu maior ídolo nos últimos 50 anos.
Idolatrado na Inglaterra e na França, ele conquistou incríveis feitos, além dos muitos títulos de campeão que acumula como poucos craques. Superou o mito Michel Platini como maior artilheiro da seleção francesa e ganhou estátua no Emirates Stadium.
A fanática torcida dos “Gunners” tem nele seu mais mortífero canhão em todos os tempos. Foi de uma louvação religiosa a recepção quando Henry retornou ao time, após o período no Barcelona e à aposentadoria no New York Red Bulls. Fez um gol mágico.
“Ele já era uma lenda aqui, mas acrescentou um pouco mais à história”, disse Arsene Wenger, com a mesma sensação de quem acreditou no moleque fazedor de gols no Mônaco. “A estátua se fez carne”, fulminou um jornalista em seu blog.